No programa “A Nossa Hora”, da TV Sucesso, abriu espaço para o debate franco e sem maquiagem, a juventude moçambicana ganhou voz — e não foi uma voz mansa. Sob a moderação de José Massango, o convidado João André fez um retrato cru, realista e revoltante das barreiras que impedem os jovens de criar empresas e construir um futuro digno em Moçambique.
João André começou por desmontar um dos maiores mitos repetidos pelo discurso oficial: “em Moçambique é fácil criar empresas”. Para ele, isso não passa de um estereótipo distante da realidade vivida pela maioria. “Não sabemos os passos, não conhecemos o caminho, e quem conhece usa isso para omitir informação e cobrar”, denunciou, apontando a burocracia e a assimetria de poder como instrumentos de exclusão.
Segundo o interveniente, o problema não é a falta de ideias nem de vontade, mas sim um Estado que cria regras proibitórias para um povo pobre. “O Governo não precisa dar dinheiro. Precisa criar facilidades”, defendeu, propondo iniciativas simples como feiras de criação de empresas, onde, em poucos dias, milhares de jovens poderiam legalizar os seus negócios.
No capítulo do financiamento, o cenário é ainda mais duro. João André foi categórico: nem bancos, nem agiotas são opção para o jovem comum. “Para pedir empréstimo tens de ter garantias. Mas o jovem vive em casa dos pais, não tem terreno, não tem emprego fixo, não tem imóveis. O que vai dar como garantia? Uma cama velha? Uma televisão de seis mil meticais?”, questionou, arrancando silêncio e reflexão.
A crítica estendeu-se aos bancos comerciais, acusados de financiarem apenas quem já está dentro do sistema, sobretudo no setor público. “Setenta mil meticais não criam uma empresa de construção civil. Não dá para fazer nada”, afirmou, rejeitando políticas de crédito simbólicas que não transformam realidades.
João André também expôs o duplo critério do Estado: rigoroso com os pequenos e permissivo com os poderosos. Denunciou o lobismo, a facilidade com que grandes projetos avançam sem respeitar regras urbanísticas, enquanto o pequeno empreendedor é esmagado por exigências irreais. “O Estado tem que assumir que tem dificuldades. Não pode exigir mais do que aquilo que consegue dar”, alertou.
Outro ponto forte da intervenção foi a desigualdade regional. Para João André, não faz sentido empresas criadas em Maputo vencerem concursos em Gaza ou Cabo Delgado, ignorando empreendedores locais. “Todo mundo tem que comer onde está”, defendeu, exigindo políticas que valorizem quem vive e trabalha nas províncias.
Num tom de indignação crescente, o convidado denunciou a tragédia social dos licenciados sem oportunidades: engenheiros a trabalhar em mercearias, agrónomos subaproveitados, jovens formados a vender carvão. “O Estado está a ridicularizar a juventude”, disparou, questionando um sistema educativo que forma para o desemprego e destrói o ensino técnico-profissional.
Para João André, a solução passa por políticas para pobres num país pobre, com menos burocracia e mais inclusão. “Mais vale o Estado receber duzentos meticais por mês de milhares de pequenas bancas do que nada”, exemplificou, defendendo a formalização simples e acessível da economia informal.
O debate deixou claro que reclamar não é oposição. É sobrevivência. É denúncia. É amor ao país. “Nós não estamos a atacar o Estado. Estamos a dizer aquilo que estamos a viver”, afirmou João André, ecoando o sentimento de milhões de jovens encurralados por um sistema que não os vê.
No final, ficou uma mensagem incontornável: Moçambique não precisa de discursos bonitos sobre empreendedorismo. Precisa de coragem política para desmontar a burocracia, combater o lobismo e abrir caminhos reais para que o povo — especialmente a juventude — possa viver do seu trabalho, com dignidade.
Enquanto isso não acontece, programas como “A Nossa Hora” tornam-se trincheiras de verdade. E vozes como a de João André, um grito que o país já não pode fingir que não ouve.

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